O PÊNDULO E O MAPA

Reflexões sobre os ciclos ideológicos na América do Sul e sua inserção no contexto geopolítico global

*Por Luciano Martins

Os processos eleitorais recentes na América do Sul recolocaram em evidência uma questão que a ciência política há muito debate, mas que a conjuntura de 2026 torna particularmente aguda: os movimentos de alternância ideológica no poder obedecem a uma lógica estrutural ou são reações conjunturais a governos em desgaste? A vitória do conservador Abelardo de la Espriella na Colômbia, país que vivenciou uma experiência inédita de esquerda sob Gustavo Petro, e a iminente ascensão de Keiko Fujimori no Peru, inseridas em uma guinada à direita observada também na Argentina, Chile e Equador, sinalizam uma reorganização substancial das forças regionais. Afastando-se de paixões partidárias, este artigo examina os padrões históricos desses movimentos pendulares, identifica as forças estruturais que os impulsionam e situa-os no cenário geopolítico global, questionando os reflexos dessa nova configuração sobre a saúde das democracias contemporâneas e a integração regional.

A dinâmica política sul-americana nas últimas duas décadas e meia é marcada por movimentos sucessivos de reconfiguração que encontram na imagem do pêndulo sua representação mais nítida. A primeira onda, a chamada “maré rosa” dos anos 2000, liderada por nomes como Lula, Kirchner, Morales e Chávez, enfatizou o papel redistributivo do Estado e a contestação ao modelo liberal herdado da década anterior. Esse ciclo cedeu espaço a uma inflexão conservadora em meados da década seguinte, quando governos como os de Macri, Duque e Piñera emergiram em resposta à estagnação econômica, à queda no preço das commodities e a crises políticas locais, sob o impacto direto do colapso venezuelano. Embora o período entre 2019 e 2022 tenha ensaiado um retorno progressista com as vitórias de Boric, Petro e o regresso de Lula, a atual guinada iniciada por Javier Milei em 2023 consolidou a dominância da centro-direita e da direita no continente. Esse histórico sugere que as lealdades eleitorais na região operam por critérios de desempenho e rejeição ao incumbente, distanciando-se de alinhamentos ideológicos perenes.

A compreensão dessa oscilação exige analisar dinâmicas que ultrapassam a retórica partidária, concentrando-se na segurança pública, nas pressões fiscais e no comportamento das instituições locais. O recrudescimento da criminalidade transnacional e a expansão do narcotráfico funcionaram como fortes catalisadores da insatisfação popular, impulsionando discursos de ordem no Equador, no Peru e na Colômbia. Esse cenário de vulnerabilidade social converge com o esgotamento de modelos econômicos baseados em forte intervenção estatal, o que tornou o eleitorado altamente refratário à inflação e receptivo a propostas de liberalização, dinâmica que encontra no programa de austeridade promovido por Javier Milei na Argentina seu caso mais agudo. No plano institucional, contudo, episódios como a crônica volatilidade presidencial peruana revelam que, a despeito do severo desgaste do sistema, as regras do jogo democrático continuam operando como o canal preferencial para o processamento de conflitos, diferenciando qualitativamente a alternância pelo voto da ruptura pela força.

Essa reorganização das forças continentais acompanha de perto as transformações que redesenham as democracias ocidentais. Na Europa, o avanço de partidos conservadores e da direita tradicional ou nacionalista manifesta-se na consolidação de Giorgia Meloni na Itália, bem como no crescimento eleitoral do Rassemblement National na França e do AfD na Alemanha. Na América do Norte, o regresso de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos em 2025 consolidou um reposicionamento geopolítico cujos reflexos atingem diretamente a dinâmica latino-americana. Centros de análise como o CEBRI sublinham que a heterogeneidade desse movimento impede leituras homogêneas; afinal, as matrizes econômicas e institucionais de Milei, Orbán, Kast ou do fujimorismo guardam distinções profundas entre si. Essa diferenciação é crucial para delimitar o papel de cada força no constitucionalismo contemporâneo, separando a oposição pluralista legítima daquela que instrumentaliza as urnas para minar os freios e contrapesos do Estado de Direito.

Nesse desenho geopolítico, o Brasil assume uma posição singular de equilíbrio continental devido à sua magnitude econômica e demográfica. Às vésperas do processo sucessório de outubro de 2026, o país enfrenta a necessidade de formular uma política externa essencialmente pragmática diante do isolamento de suas afinidades ideológicas tradicionais na região, dada a desidratação de blocos como a Unasul e as assimetrias remanescentes no Mercosul. Contraditoriamente, a maior densidade conservadora no entorno geográfico pode abrir canais para uma articulação mais técnica com Washington em áreas de segurança transfronteiriça e fluxos comerciais, sob a égide da administração Trump. O cenário impõe uma lição à diplomacia brasileira: a integração regional baseada em alinhamentos político-partidários efêmeros desfaz-se com a mudança dos ventos eleitorais, restando apenas a cooperação funcional, focada em infraestrutura, energia e comércio, como modelo capaz de resistir a longo prazo.

A dinâmica desse voto de protesto, que majoritariamente rejeita o governante em exercício em vez de chancelar doutrinas econômicas ou sociais, expõe contradições profundas sobre a qualidade democrática na América do Sul. Sob uma ótica favorável, o funcionamento regular do pêndulo atesta a saúde de sistemas que, mesmo sob severas pressões de violência e polarização, preservam a competição eleitoral como instrumento de prestação de contas. Sob o prisma da cautela, contudo, a volatilidade extrema, a personalização das lideranças e a fragmentação dos partidos enfraquecem os corpos intermediários da representação política. O populismo viceja justamente nessa erosão, criando uma barreira complexa para as novas gestões conservadoras: as demandas geradas pela simples negação do passado colidem frontalmente com a escassez de recursos e as severas limitações fiscais do presente.

O mapa político sul-americano de 2026 não deve ser interpretado como uma estação definitiva, mas sim como o registro de uma transição contínua. O pêndulo não possui estabilidade permanente, pois a insatisfação social diante da incapacidade dos governos de entregar segurança, estabilidade econômica e integridade institucional transcende clivagens partidárias. O nó central do debate reside em garantir que essa oscilação ocorra estritamente dentro das balizas do jogo democrático. A subversão institucional começa quando os atores políticos, seja na situação ou na oposição, passam a rejeitar a legitimidade da alternância pelo voto sempre que o resultado lhes é desfavorável. A indagação fundamental para o futuro do subcontinente não orbita em torno de qual espectro político ocupará o poder, mas sim se as instituições constitucionais possuirão a robustez necessária para sobreviver às próximas oscilações.

 

Luciano Martins é advogado, mestrando em educação pela Universidade Federal do Estado de Mato Grosso do Sul.