O Abu Dhabi Food Hub é um megaprojeto de infraestrutura logística dos Emirados Árabes Unidos (EAU). Trata-se de um ecossistema destinado ao comércio, processamento, armazenamento e distribuição global de produtos alimentícios, que foi concebido a partir de uma parceria entre o gigante portuário AD Ports Group e o conglomerado Ghassan Aboud Group.
Devido à necessidade dos EAU em garantir as suas rotas de suprimentos, o Abu Dhabi Food Hub tornou-se um ativo relevante para o mercado brasileiro. Em junho de 2026, deu-se a assunção da operadora portuária CLI (Corredor Logística e Infraestrutura), pelo AD Ports Group. O acordo garantiu aos árabes 100% das ações da CLI Norte (Porto de Itaqui, MA) e 80% da CLI Sul (Porto de Santos, SP).
Nasceu, de todo este processo, um dos maiores corredores logísticos do mundo: uma parcela significativa das commodities agrícolas (grãos, açúcar e proteínas) do Brasil é escoada por portos nacionais, e enviada diretamente para o Abu Dhabi Food Hub. Dali, os produtos são distribuídos para todo o Oriente Médio, Norte da África e Ásia Meridional, uma região que concentra bilhões de consumidores.
Essa conexão coloca o agronegócio e a infraestrutura logística do Brasil em um patamar estratégico sem precedentes. O país deixa de ser apenas um exportador tradicional de commodities, para se tornar um parceiro da soberania alimentar do Oriente Médio, e um elemento importante da cadeia global de valor.
Estamos frente a um redesenho do fluxo do comércio internacional do Brasil. Historicamente, o país vendia seus grãos e proteínas para intermediários internacionais, que cuidavam do frete e da distribuição. Ao adentrar no coração do Abu Dhabi Food Hub, o Brasil recebe capital estrangeiro para modernizar seus portos e ferrovias, e se torna sócio do abastecimento de uma das regiões mais ricas do planeta. É o que se chama de uma simetria estratégica.
De forma silenciosa, um outro segmento brasileiro também dá os primeiros passos rumo à proeminência. Falo do desenvolvimento e da utilização de soluções de IA regulatória. No transcorrer do processo de aquisição da CLI pelo AD Ports Group, por exemplo, a ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) se fez presente como o órgão regulador de Estado. As atribuições da agência iniciaram quando da análise prévia (habilitação) e do julgamento (aprovação), continuando com a fiscalização no pós-fechamento.
No Brasil, os contratos de arrendamento demandam revisões, pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro e prorrogações antecipadas de prazo. Quando mal fundamentados ou fora dos critérios técnicos do Órgão Regulador, geram atraso e perdas financeiras vultosas.
Por mais que se discuta a desregulamentação nacional, ela leva tempo e exige negociações as mais variadas, algumas vezes envolvendo tratativas entre os Poderes Executivo e Legislativo. Por decorrência, a adoção de tecnologia de IA regulatória, por investidores internacionais, tem um papel estratégico. Este tipo de IA funciona como uma “ponte de tradução”: ela viabiliza o cruzamento de normas, consultas e decisões de Agências Reguladoras, alertando os investidores e mitigando os riscos sobre o fluxo de caixa futuro.
Existe uma startup brasileira, denominada JX, que desenvolveu uma IA regulatória de alto desempenho. A plataforma da JX centraliza, estrutura e analisa decisões, processos, normas e projetos das Agências Reguladoras. Ela possui um extrator proprietário, que coleta e mantém atualizados os documentos advindos das Agências. Esses dados são processados por um algoritmo especificamente ajustado para o domínio jurídico-regulatório brasileiro, capaz de interpretar a terminologia técnica e as nuances contextuais dos julgados e normativos.
Por intermédio de uma interface intuitiva, o usuário da plataforma submete consultas e recebe uma análise direcionada, com o resumo das respostas e a cópia integral de todas as decisões e normas que serviram de fundamentação. A plataforma da JX agiliza o acesso a documentos essenciais para a consecução de fusões e aquisições, para a análise de mercado e para a participação em consultas públicas, leilões e licitações.
A entrada em campo, de uma solução robusta de IA regulatória no mercado brasileiro, reduz os riscos dos investimentos de longo prazo, destravando a entrada de aportes bilionários provenientes de fundos soberanos e de Venture Capital.
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.



Relacionadas
Lula apoia maioridade penal aos 16 anos para crimes hediondos
Flávio Bolsonaro reúne multidão em Manaus ao lado de Nikolas
Mourão compara Lula a Biden após debate e defende renovação