Prezados(as) candidatos(as),
O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. De um lado, presenciamos um gargalo de governança interna, permeado por uma crise institucional e moral sem precedentes e que nos enche de vergonha. Por outro lado, longe dos holofotes, existe um Brasil potente que está na vanguarda da sustentação alimentar do mundo, que dispõe da mais extensa reserva de água doce do planeta, que detém um cinturão inconteste de minerais e terras raras e que se depara com uma nova fronteira de petróleo, gás e energia na Margem Equatorial.
Em um cenário global dinâmico, a inserção deste “Brasil empreendedor” nas cadeias internacionais de valor, não deve ser encarada como uma pauta setorial. Nos últimos 100 anos, todos os países que compraram passagem para o “vagão do sucesso”, o fizeram a partir da potencialização do comércio exterior. Foi assim com os Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coréia do Sul e China. Com resiliência e uma política de Estado de vinte anos, a metamorfose ocorrerá também no nosso país, momento em que resgataremos a nossa dignidade.
Para transformar essa visão em realidade, discorro sobre seis eixos prioritários para as próximas agendas de Estado:
- Dobrar o Investimento na Infraestrutura de portos, rodovias, ferrovias e mineração sustentável, com atração de Investimento Estrangeiro Direto (IED).
Existe uma correspondência biunívoca entre o sucesso de um projeto de país ancorado no comércio exterior, e a efetividade da infraestrutura. O déficit crônico do Brasil em portos, rodovias, ferrovias e estrutura digital se constitui no principal obstáculo, para posicionar o país como um “player” de destaque nas redes mundiais de produção.
A minha sugestão, srs. candidatos, está em sustentar um compromisso de Estado pelos próximos 20 anos, que tenha como obsessão o incremento da taxa de investimento em infraestrutura de 2% do PIB (U$ 50 bi/ano), para 4% do PIB (U$ 100 bi/ano).
A consecução por duas décadas, da meta estipulada, alteraria o patamar de renda e a estrutura produtiva do país. A economia ajustaria o crescimento anual do PIB dos atuais 1,8% ao ano, para um nível sustentado de 4,2% ao ano. No horizonte de 20 anos, o PIB brasileiro cresceria mais de 110%, ao invés dos esperados 46%.
Esta revolução silenciosa produziria um conjunto de transformações estruturais como a redução do “Custo Brasil”, o incremento da produtividade e a inserção do país em diversas cadeias globais de valor. Segundo o relatório da PwC, intitulado “The Long View: How will the global economic order change by 2050?” o Brasil se tornaria a quinta maior economia do mundo até 2050 (dentro do critério de paridade do poder de compra – PPC, que ajusta o PIB pelo custo de vida local).
- O Agronegócio: Segurança Alimentar e Inovação
O agronegócio brasileiro transcendeu da condição de setor produtivo primário, e se consolidou como uma potência de inovação tecnológica. Respaldado pela pesquisa científica, com destaque para o trabalho pioneiro da EMBRAPA, o setor transformou o solo pátrio no mais produtivo do planeta, garantindo divisas internacionais indispensáveis à estabilidade macroeconômica.
Em um mundo que enfrenta o crescimento demográfico e os impactos das mudanças climáticas, o Brasil é um garantidor direto da segurança alimentar de bilhões de pessoas, conferindo ao país poder de barganha em fóruns internacionais. Aqui a presença do Estado deve se fazer mais firme. Para assegurar que o agronegócio continue crescendo e mantendo sua competitividade internacional, a recomposição e o fortalecimento do orçamento da Embrapa são urgentes, frente aos novos desafios que advirão.
- Terras raras: O ponto de partida da cadeia global da IA e da Transição Energética
O mercado dos 17 elementos químicos advindos de terras raras, encontra-se na base dos dois principais eixos da geopolítica mundial: a transição energética e a cadeia global de valor da IA. Mais da metade das reservas conhecidas de terras raras se concentra na China e no Brasil. No entanto, os números sofrem um abalo sísmico, após a adequação necessária ao uso pela indústria. A China controla o setor dos produtos já refinados, com mais de 85% da fatia mundial. O nosso país não dispõe de expressão estatística neste quesito.
Vemo-nos espremidos entre a hipótese de “volatilidades esporádicas” programadas pela China, e o pragmatismo financeiro do Ocidente, que prefere manter o Brasil na posição de fornecedor de matéria-prima barata. Destarte, eu defendo que o Brasil priorize ações destinadas à agregação de valor criando, para tal, pontes a partir de um modelo de diplomacia multilateral. Os países alvo da empreitada de aproximação seriam a China, Estados Unidos, Malásia, Japão e Austrália.
- Regime Especial para Tributação de Data Centers (REDATA)
O REDATA foi instituído pelo governo, por intermédio da MP nº 1.318/2025, e agora se viu aprovado no plenário do Senado e sancionado pelo Presidente da República. Esta medida coloca o Brasil na rota dos investimentos e das cadeias globais de computação em nuvem e de IA.
Diante da aprovação do REDATA, viabiliza-se ao longo dos próximos 10 anos a atração de até US$ 300 bilhões em novos investimentos em infraestrutura digital e energia. Tomando como base a taxa de crescimento do PIB brasileiro de 1,8% ao ano, os investimentos previstos tendem a adicionar 0,2 pontos percentuais ao ano na taxa do PIB, em especial entre 2027 e 2031.
- Construção de pontes para prover inovação – Pax Silica
A inovação é o motor que transforma o conhecimento em valor. Ela deixou de ser um mero diferencial competitivo, para se tornar uma condição básica de sobrevivência. O Pax Silica constitui-se numa iniciativa liderada pelos Estados Unidos, para reconfigurar a cadeia global de suprimentos de semicondutores e tecnologias críticas (aí incluindo IA e os elementos de terras raras). Também possuem papel de destaque nesta iniciativa o Japão, Taiwan, Coréia do Sul, Austrália, Índia, União Europeia (em especial a Holanda) e Israel.
Prover aproximação estratégica com parte dos representantes desta iniciativa, destacando-se Israel, Coreia do Sul e Austrália, provocaria a inserção de cientistas e startups brasileiras no estado da arte de setores da IA, biotecnologia e medicina de precisão.
- IA Regulatória como elemento de combate à Volatilidade Normativa e Insegurança Jurídica – O Caminho para Contornar a Burocracia
A adoção de uma Inteligência Artificial Regulatória (IAR) se apresenta como a grande solução para o entrave da volatilidade de regras e normas do país. Esta volatilidade se constitui em elemento dificultador da entrada massiva de IED na infraestrutura brasileira de portos, ferrovias e mineração. A IAR tem potencial para se tornar um verdadeiro mapa de navegação pelo setor regulatório brasileiro, otimizando a análise do histórico de decisões e manifestações técnicas das Agências e Entes Reguladores.
Neste quesito, o Brasil já dispõe de uma solução robusta e gestada no próprio país. Refiro-me à plataforma de IAR da empresa JX IA, hoje parceira de duas Instituições de renome: a FUNCEX – Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais e o INTR – Instituto Nacional de Terras Raras.
Srs candidatos(as), em especial os presidenciáveis: Historicamente, países que conseguiram dar o salto de nação em desenvolvimento para nação desenvolvida, o fizeram potencializando a sua participação no comércio internacional, e trocando a dependência de recursos naturais pela exportação de inteligência.
Os Prêmios Nobel de Economia de 2024 e 2025 reforçam que o desenvolvimento das nações depende da qualidade das suas instituições, e da capacidade de renovar a sua estrutura produtiva. Na medida em que a nossa engrenagem institucional se vê “tomada pela ferrugem”, eu conclamo cada postulante a colocar essas seis pautas no centro de seus planos de gestão.
Urge a assunção do compromisso de posicionar o Brasil como uma potência produtiva, sustentável e tecnologicamente integrada no cenário mundial. Nunca é demais ressaltar o nosso dever, diante do legado que deixaremos para as gerações futuras. Boa eleição a todos.
Respeitosamente
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.




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