Novo teto do MEI pode ampliar rombo do INSS em até R$ 98 bi

O Globo: ‘pacote de bondades’ para MEI vai ampliar o rombo da Previdência

As recentes alterações legislativas que flexibilizam as regras para o Microempreendedor Individual (MEI) acenderam um sinal de alerta entre analistas sobre o equilíbrio fiscal do país. Com o aumento expressivo no limite de faturamento anual, perdão de tributos em atraso e criação de transferências diretas de renda, o pacote de incentivos ameaça aprofundar a crise orçamentária e gerar um rombo bilionário na Previdência Social nas próximas décadas.

Novas regras e incentivos financeiros ao microempreendedor

Pelas novas diretrizes aprovadas no Congresso Nacional, o teto de enquadramento da categoria passará por um salto significativo. O limite de receita bruta anual, hoje fixado em R$ 81 mil, subirá para R$ 110 mil em 2027 e atingirá R$ 140 mil a partir de 2028.

Além da elevação da receita permitida, o programa prevê outros dois mecanismos de alívio financeiro que pressionam o Tesouro Nacional:

O perdão integral de dívidas tributárias com a União que tenham vencido até 13 de outubro de 2026, medida estimada em uma renúncia fiscal de aproximadamente R$ 3 bilhões entre 2027 e 2029.

O Pix MEI, um repasse financeiro sem contrapartida que pode alcançar até R$ 5 mil anuais por empreendedor, com custo orçamentário previsto em torno de R$ 5 bilhões ao longo de quatro anos.

Rombo previdenciário pode atingir R$ 98 bilhões

O maior foco de apreensão econômica reside no impacto a longo prazo sobre o regime geral de aposentadorias. Projeções elaboradas pelo economista Rogério Nagamine Costanzi apontam que a ampliação da modalidade provocará um déficit previdenciário adicional entre R$ 60 bilhões e R$ 98 bilhões até o fim deste século.

Esse descompasso ocorre porque a contribuição recolhida mensalmente pelo MEI é reduzida e não cobre os custos atuariais dos benefícios concedidos. Em termos práticos, uma trabalhadora que ingresse no regime aos 20 anos e se aposente aos 62 anos terá direito a uma aposentadoria cujo valor total pode superar o montante recolhido em até R$ 140 mil.

O peso adicional incidirá sobre um sistema que já enfrenta grave desequilíbrio: apenas no último ano, os cofres do Tesouro precisaram cobrir um rombo de R$ 320 bilhões para garantir o pagamento dos benefícios do INSS.

Fuga da CLT e desvirtuamento do propósito original

Criado em 2008, o estatuto do MEI tinha o objetivo central de resgatar trabalhadores informais de baixa renda e inseri-los no sistema de proteção social. No entanto, o contínuo alargamento dos critérios tem transformado o perfil dos participantes.

Atualmente, cerca de um terço dos inscritos migrou diretamente do modelo tradicional com carteira assinada (CLT) para atuar como pessoa jurídica. O novo patamar de renda tende a acelerar a atração de profissionais de maior escolaridade e renda mais elevada, além de estimular transferências de enquadramento de empresas do Lucro Presumido e do Simples Nacional.

O estímulo à migração corporativa e a anistia a inadimplentes acabam por restringir a arrecadação tributária da União e, paralelamente, elevam as despesas futuras do Estado, agravando o desafio de sustentabilidade das contas públicas brasileiras.