A boca também salva vidas: o papel estratégico da odontologia hospitalar na segurança do paciente

A integração do cirurgião-dentista às equipes hospitalares representa um avanço importante na prevenção de infecções e na segurança do paciente internado.

Em um sistema de saúde cada vez mais pressionado por demandas crescentes, envelhecimento populacional e limitações de recursos, estratégias capazes de ampliar a segurança do paciente e reduzir complicações hospitalares tornaram-se prioridade global. Nesse contexto, um aspecto frequentemente negligenciado começa a ganhar o reconhecimento que merece: a saúde bucal no ambiente hospitalar.

Durante décadas, a cavidade oral foi tratada como um campo isolado dentro da assistência em saúde. Hoje, entretanto, evidências científicas mostram que alterações na microbiota oral podem influenciar diretamente a evolução clínica de pacientes hospitalizados, especialmente aqueles em estado crítico.

É nesse cenário que ganha relevância a odontologia hospitalar — área responsável por integrar o cirurgião-dentista às equipes multiprofissionais que atuam em hospitais e unidades de terapia intensiva.

Pacientes internados, sobretudo aqueles submetidos à ventilação mecânica ou sob sedação prolongada, frequentemente apresentam grande dificuldade de manter a higiene bucal adequada. Essa condição favorece o acúmulo de biofilme dental e a proliferação de microrganismos potencialmente patogênicos na cavidade oral.

Diversos estudos demonstram que essas bactérias podem migrar para o trato respiratório inferior, contribuindo para o desenvolvimento da pneumonia associada à ventilação mecânica — uma das infecções hospitalares mais relevantes nas unidades de terapia intensiva.

Dados da literatura científica indicam que essa complicação pode prolongar o tempo de internação em até nove dias, além de elevar significativamente os custos hospitalares e o risco de mortalidade em pacientes críticos. Em contrapartida, protocolos estruturados de higiene oral supervisionados por profissionais capacitados podem reduzir em até 40% a incidência dessas infecções.

Esses dados revelam um ponto essencial da medicina contemporânea: a prevenção continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para melhorar desfechos clínicos e otimizar os recursos do sistema de saúde.

Nesse contexto, a presença do cirurgião-dentista no ambiente hospitalar deixa de ser apenas complementar e passa a assumir caráter estratégico.

No Brasil, o reconhecimento da importância da odontologia hospitalar vem crescendo progressivamente.

A medicina moderna já compreendeu que o corpo humano não pode ser fragmentado em compartimentos isolados.

Dra. Vanessa Portocarrero
Cirurgiã-dentista
Mestre e Especialista em Implantodontia
Especialista em Odontologia Hospitalar