Por Luciano Martins
A vida humana pode ser comparada a uma dança constante, imprecisa e imprevisível, onde lucidez e loucura se alternam em uma valsa frenética. Em um momento, passos firmes e movimentos precisos desenham uma coreografia simétrica, elegante, quase hipnótica. No instante seguinte, surgem desalinhos sucessivos, articulados por devaneios, como se a melodia mudasse abruptamente, fazendo perder o compasso e a razão que até então guiavam os movimentos. No centro desse espetáculo, destaca-se a alternância involuntária que nos intriga e desafia, exigindo uma busca incessante pelo equilíbrio entre o racional e o irracional.
Friedrich Wilhelm Nietzsche, em sua obra Assim Falou Zaratustra, apresenta a imagem da “serpente”, símbolo da sagacidade e da habilidade de transitar entre essas duas dimensões da experiência humana. Ele expressa o desejo de possuir uma clareza que se funde à astúcia instintiva: “Quem me dera ser mais sagaz… Quem me dera ser essencialmente sagaz como a serpente!” Para Nietzsche, essa sagacidade é essencial para enfrentar a dualidade entre lucidez e loucura, permitindo navegar por ambas sem perder a essência ou se submeter a nenhuma delas. Em síntese, trata-se da habilidade de compreender as complexidades da vida e dançar com elas, sem receio de perder o ritmo.
E a vida, afinal, não é uma valsa frenética e intuitiva, onde lucidez e loucura ora se entrelaçam em harmonia, ora colidem em dissonância? O enigma da existência jamais será inteiramente desvendado. A grande revelação encontra-se na aceitação dessa dança imprevisível, onde cada passo, por mais incerto que pareça, contribui para a beleza de um movimento finito. Tudo isso sob o olhar silencioso da morte, a espectadora fiel que contempla, serena, enquanto todos dançam.
Nesse breve movimento em que lucidez e loucura se conectam, talvez a verdadeira sabedoria esteja em abraçar a incerteza, reconhecendo que cada passo, mesmo os mais caóticos, é parte do mistério maior da existência.
Que neste novo ano, possamos dançar com a incerteza da vida, acolhendo cada passo – firme ou vacilante – como parte da melodia que nos conduz. Que a lucidez nos guie, a loucura nos inspire, e a beleza efêmera da existência nos impulsione a continuar. Feliz Ano Novo!
Luciano Martins é advogado, professor e vice-presidente da União Brasileira de Apoio aos Municípios (UBAM) no Estado de Mato Grosso do Sul. Atuou como secretário-adjunto de Governo, controlador-adjunto e diretor-presidente da Fundação Social do Trabalho no Município de Campo Grande (Funsat).





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