Cargos públicos têm progressão na gestão de pessoas negras, mas mulheres representam somente 15% desses cargos de liderança

Foto: João Lins

Em 25 anos, cargos estratégicos para ‘homens negros e indígenas’ aumentou para 24%, enquanto o grupo de ‘mulheres negras e indígenas’ para 15%.

O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP) divulgou o percentual dos cargos de liderança por raça e gênero no Brasil, de 1999 até 2024. Nos últimos 25 anos, o grupo de ‘homens negros e indígenas’ saltou de 13% para 24%, enquanto as ‘mulheres negras e indígenas’ crescia timidamente seis pontos percentuais – de 9% para 15%.

O estudo inédito “Lideranças Negras no Estado Brasileiro (1995-2024)” é uma realização do núcleo de pesquisa AFRO – vinculado ao CEBRAP. O perfil dos ocupantes compreende entre os anos de 1999, durante o 2º mandato de Fernando Henrique Cardoso (FHC), até o atual governo de Luiz Inácio “Lula” da Silva (2025). O relatório traça as variações de cargos ocupados por ‘homens e mulheres – brancas e negras’, também nos governos Dilma, Temer e Jair Bolsonaro.

A pesquisa indica que o percentual de ‘homens e mulheres, negras e indígenas’ é o único que se manteve em constante crescimento. Por outro lado, o grupo de ‘homens e mulheres brancas’ é o que mais apresenta variações percentuais, com altos e baixos.

Na categoria de ‘cargos de alta liderança no Executivo Federal’, as ‘mulheres não brancas’ partiram do patamar de 1,6% e apresentaram um lento crescimento até chegar a 5,7% em 2022, com salto recorde para 11% em 2023 e 2024. O fenômeno da ascensão de homens e mulheres pretas nas esferas pública e privada, é observado pela Executiva de Atendimento e Relações Públicas, Thainá Pitta. A especialista afirma que a perspectiva negra vem transformando a relação entre empresas e consumidores, com direcionamento estratégico desde a virada da década.

“A visão da mulher negra e de outras lideranças pretas está construindo uma ponte entre marcas e stakeholders. O salto da liderança feminina e preta já se propaga no setor público. Prova disso é que o Brasil poderia ter uma economia 30% maior se fosse menos desigual, segundo o seminário ‘Empoderamento Econômico da População Afrodescendente’, que ocorreu em Brasília neste ano. A virada da década trouxe muitos insights ao mercado, e um deles é como a perspectiva negra vem transformando essa relação entre marcas e consumidores. Como sabemos, a economia muda o mundo, e a visão afro está cada vez mais alinhada à perspectiva global”, explica.

Thainá Pitta está inserida dentro dessa pequena parcela que ressignificou a perspectiva do mercado de trabalho onde atuou, a partir dos campos da comunicação e produção cultural. Mulher preta e baiana, a Executiva de Atendimento esteve envolvida em grandes projetos como o The Town Brasil, Rock in Rio Lisboa, Carnaval de Salvador, SDG in Brazil, Prêmio Sim à Igualdade Racial e o festival Kizomba Design Museum.

A atuação da Relações Públicas está dentro da transformação mundial prevista pelo ‘Movimento Raça é Prioridade’ – uma das sete iniciativas do “Pacto Global da ONU Brasil”, pelo programa ‘Ambição 2030’. Compondo um dos ‘Objetivos de Desenvolvimento Sustentável’ (ODS), o projeto atua na promoção de mais de 15 mil pessoas negras em cargos de liderança até 2030, com 1500 empresas comprometidas.

“É interessante observarmos que, cada vez mais, as pautas se alinham. Seja o crescimento do público preto na esfera pública, seja a influência na economia ou a pauta racial como destaque dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A perspectiva negra sobre o trabalho nunca foi tão valorizada, como nesta década. O crescimento é contínuo e o relatório ‘Lideranças Negras no Estado Brasileiro’ não deixa mentir: a população negra não oscila na ocupação de cargos de liderança – ou crescemos, ou permanecemos”, afirma.

A visão do setor público não é a única que apresentou mudanças. A representatividade negra na comunicação das marcas passou de 44% para 53% no começo da década, segundo a plataforma Buzzmonitor. A mudança comportamental dos consumidores também influenciou as marcas. De acordo com a Adobe, 38% dos entrevistados consomem produtos e serviços de marcas com foco em diversidade nos anúncios – e 34% boicotam marcas que não se sentem representadas nas propagandas empresariais.

Apesar das mudanças, Thainá revela que os desafios envolvem: inserção tardia no mercado de trabalho, desigualdade salarial dobrada por gênero e raça, racismo e preconceito, falta de acesso a redes de influência, estereótipos associados à competência e à liderança negra, e o mais recente fenômeno – a ‘disputa racial’ no meio de trabalho.

“Na minha rotina como Executiva de Atendimento, a disputa racial não se manifesta apenas em conflitos explícitos, mas sim na competição silenciosa por espaços de poder, legitimidade e visibilidade. Mulheres negras, ao ocuparem posições de liderança, enfrentam uma sobrecarga emocional significativa — são frequentemente descredibilizadas, têm sua autoridade questionada e, não raro, acumulam responsabilidades sem o devido reconhecimento. Essa dinâmica gera um ambiente de tensão contínua, onde a competência é constantemente posta à prova por filtros raciais e de gênero”, explica.

Para Thainá Pitta, combater a disputa racial exige mais do que ações pontuais de diversidade – é necessário reformular práticas de gestão, reconhecer os impactos históricos do racismo nas relações de trabalho e criar espaços reais de escuta e valorização da experiência negra nas empresas.