Quando uma pessoa é internada em estado grave, médicos, enfermeiros e fisioterapeutas entram imediatamente em ação. Monitores apitam, exames são solicitados, medicamentos são ajustados a todo instante. Em meio a essa complexa engrenagem da medicina moderna, existe uma parte do corpo que, por muito tempo, permaneceu praticamente invisível: a boca.
Parece um detalhe. Mas não é.
A cavidade oral pode abrigar milhões de bactérias capazes de transformar uma internação já delicada em um quadro ainda mais grave. Em pacientes sedados, entubados ou com dificuldade para realizar a própria higiene, esse acúmulo de microrganismos pode favorecer infecções respiratórias potencialmente fatais.
Durante décadas, acreditou-se que cuidar da boca dentro do hospital era apenas uma questão de conforto. Hoje sabemos que essa visão estava equivocada.
A odontologia hospitalar deixou de ser um serviço complementar para tornar-se parte da assistência baseada em evidências. O cirurgião-dentista atua identificando focos de infecção, tratando lesões, controlando o biofilme e participando de protocolos que contribuem para reduzir complicações clínicas.
Não se trata apenas de preservar dentes. Trata-se de proteger pacientes que já enfrentam situações extremamente delicadas.
O Brasil possui profissionais altamente qualificados nessa área, mas a presença do cirurgião-dentista em hospitais ainda não é uma realidade uniforme. Enquanto alguns serviços já incorporaram protocolos modernos de higiene bucal e atuação multiprofissional, outros ainda subestimam um cuidado capaz de influenciar diretamente a evolução clínica do paciente.
É preciso romper definitivamente com a ideia de que saúde bucal pertence apenas ao consultório odontológico. A boca faz parte do corpo. Suas infecções não respeitam fronteiras anatômicas e podem repercutir em todo o organismo.
O envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas tornam essa discussão ainda mais urgente. Cada vez mais brasileiros dependerão de internações hospitalares complexas. Oferecer uma assistência verdadeiramente integral significa reconhecer que nenhuma parte do organismo pode ser negligenciada.
A odontologia hospitalar não disputa espaço com outras especialidades. Ela soma competências, fortalece o cuidado multiprofissional e amplia a segurança do paciente.
Talvez a maior evolução da odontologia nas últimas décadas não esteja apenas nos implantes, nos scanners digitais ou na inteligência artificial. Ela esteja na compreensão de que um simples cuidado com a boca pode contribuir para evitar uma infecção grave, reduzir o tempo de internação e, em determinadas circunstâncias, salvar uma vida.
Valorizar a odontologia hospitalar não é defender uma categoria profissional. É defender um modelo de assistência mais completo, mais humano e mais seguro para todos.
Dra. Vanessa Portocarrero
Mestre em Implantodontia
Especialista em Odontologia Hospitalar



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