Expansão do ensino superior não basta: sem dedicação e vocação técnica, país seguirá carente de profissionais essenciais
Em minha infância lá na Fama, um bairro de Goiânia que à época parecia distante do Centro, a caminhada se direcionava para a escola e apenas enquanto os pais estavam vendo –o restante era na correria, porque moleque não se aguenta devagar, imagine quieto. O próprio nome do lugar vinha de escolas mantidas pela Maçonaria na Fundação de Assistência ao Menor Abandonado, depois esse título ficou ofensivo e mudou para “ao Menor Aprendiz”.
Naqueles meados dos anos 1960, a meninada estudiosa admirava demais quem fazia faculdade. Se não tivesse exemplos em casa, como eu, ficava curiosa até sobre como vivia um universitário. A jovem que apresentava um deles como pretendente recebia apoio da parentada toda.
Antes do vestibular, precisávamos dos exames do Gonçalves Ledo, o colégio profissionalizante da Fama, com cursos técnicos de administração de empresas e contabilidade. O funil, estreitíssimo, deixava orgulhosas as famílias dos secundaristas aprovados, porém nada se comparava a quem entrasse no direito, na medicina, nas engenharias ou em qualquer outro curso superior –nem carecia ser tão superior assim. No país inteiro, 101 mil rapazes e moças (mais eles do que elas) conseguiram em 1960.
A evolução em quantidade está sendo tamanha que assombra: em 2010, já eram 4.784.620 vagas e passaram para 23.665.419 em 2024. A maioria, pela 1ª vez, na modalidade ensino à distância. No nosso tempo lá na Fama, o EaD era pelos Correios. O mais famoso, o Instituto Universal Brasileiro, tinha o que hoje é a arroba repetida com insistência nos programas de rádio: caixa postal 5058, São Paulo. A pessoa exibia sorridente o diploma do IUB na parede ao lado dos quadros com fotos pintadas das diversas gerações.
É covardia comparar o percentual de mercado de IUB e EaD, pois sobrava serviço para o eletricista formado por ele e suspeito que seja baixíssimo o aproveitamento da mão de obra qualificada por ela. Há 57 anos, exatamente na noite de 23 de setembro de 1968, morreu o santo italiano Padre Pio, que entre outras lições de devoção tem uma que vale para os 2 estágios: a dedicação ao extremo. Claro, não precisa chegar ao autoflagelamento. Quarenta anos antes de ele subir ao céu, Karol Wojtila confessou-se com ele e 30 anos depois subiria a fumaça branca anunciando-o papa –e João Paulo 2º foi quem canonizou Pio.
A diferença está no número de horas com a cara grudada nos livros. Ocorreu comigo para passar em concursos públicos, acontecia com os mecânicos de automóveis diplomados pelo Instituto Universal, o mesmo com Pio e Wojtila/JP2.
Divulgou-se nesta semana o Censo da Educação Superior do Inep/MEC, com dados relativos a 2024: mais de 5 milhões (18% mais elas do que eles) entraram nas 2.561 faculdades. Quase 5.000% mais desde 1960 –pena que só as lágrimas acompanhem, sangue e suor muito menos.
Critica-se bastante o nível de professores e resultados das faculdades, presenciais e à distância. Porém, o item nº 1 é personalíssimo, o esforço, individual. Óbvio que a tecnologia ajuda, as telinhas se revelaram maravilhosas, os novos métodos são ótimos, ter uma sala de aula em cada esquina popularizou, mas nada substituiu a dupla olho e letra, dentro da escola ou na mesinha do quarto.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, está com interessante experiência, que faz sucesso na Ásia, de valorizar as horas que o aluno fica em casa. É uma fórmula eficiente de ofuscar as atrações da rua.
Tornou-se difícil competir com os vídeos no celular e as mensagens nas redes sociais, então, por que não incentivar o estudante a investir parte do dia em vídeos e mensagens de conhecimento?
Os antepassados desses jovens aprenderam corte e costura e desenho industrial à luz de lamparinas a querosene. Os que se alfabetizaram ainda crianças foi porque caminharam léguas de areia, poeira e lama rumo à classe multisserial das escolas rurais e nos distritos, como a Capelinha, na minha Anicuns natal.
Os profissionais da educação enfrentam desafios gigantescos, como a quantidade de matrículas (10.227.266) e de concluintes (1.333.988) em 2024. Reclamões e pessimistas dão a desculpa da desistência porque as explicações são chatas: que estavam com sono, a mensalidade pesa no bolso, saem tarde do emprego ou o curso não capacita à altura de suas exigências de empreendedores. Se o número de vagas aumentou quase 500% desde 2010, o de quem pegou o canudo no mesmo período não subiu 40%.
Existem movimentos para não fazer faculdade, aplicativo com 12 minutos de áudio para obras com 800 páginas, a cultura do resumo em PDF, enfim, os atalhos para chegar à beatificação sem saber o Pai-Nosso.
Os professores universitários eram 290.510 há década e meia, são 316.989 e há 887.695 fazendo pedagogia. Têm a missão de segurar a moçada e orientar a vocação, pois o Brasil precisa de engenheiros, físicos, matemáticos, químicos e biólogos. Não dá para apresentar aos pais só quando se namora influencer.





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