Por Luciano Martins
No teatro da democracia brasileira, os Poderes disputam o protagonismo dos deuses enquanto o cidadão, anestesiado, financia o desmonte de seus próprios limites constitucionais. Enquanto o tabuleiro da geopolítica mundial se redesenha, Brasília prefere o refúgio na cronologia dos mitos. Como na Ilíada, o Brasil de 2026 assiste à sua própria guerra de Troia, onde a norma jurídica tornou-se o Cavalo de Troia da própria Constituição, uma substância fluida moldada pelo prestígio de seus intérpretes e pelo choque de egos entre semideuses
No centro da arena, o Judiciário abandonou o papel de oráculo silencioso para vestir a armadura de Palas Atena. Mas é uma Atena moderna, irônica, que não se contenta em apenas soprar sabedoria aos ouvidos dos mortais para evitar erros. Ela desceu ao campo de batalha, tomou a espada e, entre um despacho e uma liminar, passou a reformular a arquitetura da guerra. Ao transitar do julgar para o legislar e, não raramente, para o governar, edificou-se uma jurisdição de onipresença. A norma jurídica deixou de ser porto seguro; opera agora como substância fluida, moldada ao sabor do vento político e ao prestígio de seus intérpretes.
Nos corredores do Parlamento, o espírito de Agamêmnon sobrevive na avidez pelas emendas impositivas. O chamado Centrão, essa entidade coletiva de ideologia volátil, não luta por visões de país, mas por espólios. O orçamento público converteu-se em butim, e a impositividade em eufemismo técnico para o saque institucionalizado. A política foi reduzida à lógica do feudo: vence quem controla o erário, não quem projeta a nação.
O Executivo, outrora o Zeus da República, hoje observa o próprio esvaziamento com uma paralisia quase contemplativa. Entre intervenções judiciais e exigências legislativas, o governo tornou-se gestor de crises permanentes, um herói exausto tentando comandar uma falange que já não lhe dedica obediência integral. Nunca se falou tanto em presidencialismo; raramente se praticou com tamanha naturalidade a partilha de escombros.
A grande tragédia desse arranjo reside na deformação da hýbris. Na Antiguidade, ultrapassar os limites da própria natureza atraía a punição dos fados. No Brasil contemporâneo, a transgressão institucional virou credencial de prestígio. O magistrado que legisla, o parlamentar que executa e o governante que se omite não temem a nêmesis; disputam aplausos, manchetes e relevância. O equilíbrio entre os Poderes, que deveria produzir harmonia, degenerou em um concerto de solistas surdos.
A civilização avançou quando o julgamento deixou as mãos das divindades e foi confiado ao júri dos homens. Aqui, seguimos o caminho inverso. Devolvemos o destino da pólis ao capricho de semideuses togados ou parlamentares, enquanto o cidadão assiste da planície, como o soldado troiano que capitula sem jamais compreender qual ofensa, no cume do monte, iniciou o combate. Por trás da metáfora, esconde-se uma verdade incômoda: o protagonismo inflado das autoridades é diretamente proporcional à desidratação da soberania popular.
Quanto mais os deuses disputam prerrogativas no topo do Olimpo, menos se ouve o clamor da base. O sistema passou a existir para si mesmo, reproduzindo privilégios e interpretações criativas. A Constituição deixou de ser mapa para tornar-se um teste de “Rorschach institucional”. Chegamos a 2026, ano eleitoral, sem ter assimilado a lição. A democracia brasileira transformou-se no único espetáculo em que o dono do teatro paga o ingresso, mas é impedido de subir ao palco.
A paciência social já não é virtude cívica; é pura anestesia. O calendário impõe a decisão, mas a escolha real ultrapassa os nomes nas urnas. De que adianta substituir os reis se o Olimpo permanece intocado? Em outubro, o povo será convocado a exercer o poder soberano que as instituições dizem defender enquanto o exercem longe de seus olhos. A verdadeira escolha de 2026 é simples e radical: continuar figurante dessa Ilíada sem fim ou reivindicar o papel de autor. No teatro da democracia, os deuses são apenas atores. O dono do palco, e o único capaz de baixar as cortinas, ainda é o povo.
*Sobre o autor: Luciano Martins é advogado, assessor jurídico, mestrando em educação pela Universidade Federal do Estado de Mato Grosso do Sul – UFMS


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