O mercado dos 17 elementos químicos advindos da mineração, transformação e processamento de terras raras, encontra-se na base dos dois principais eixos da geopolítica mundial: a transição energética e a cadeia global de valor da Inteligência Artificial.
Mais da metade das reservas conhecidas de terras raras se concentra na China e no Brasil. No entanto, os números sofrem um abalo sísmico, após a adequação necessária ao uso pela indústria. A China controla o setor dos produtos já refinados, com mais de 85% da fatia mundial. O nosso país não dispõe de expressão estatística neste quesito.
O Brasil possui a tecnologia de refino e produção, mas somente em escala de laboratório e plantas-piloto. Entretanto, existe uma diferença abissal entre dominar a ciência do refino, e ter capacidade de processar milhares de toneladas por ano de forma competitiva.
Após décadas de subsídios estatais, o custo do refino chinês se tornou imbatível. Já no caso do Brasil, a evolução de um cenário de planta-piloto para o de uma refinaria industrial exigiria investimentos bilionários. Ocorre que o país não dispõe de recursos orçamentários compromissados com esta empreitada, perdeu a janela de oportunidade para a consecução de um plano de ação de longo prazo e não conta com um parque industrial pujante, capaz de absorver a produção de baterias de carros elétricos ou componentes de defesa.
Ademais, sempre que as mineradoras privadas que operam no Brasil recorrem ao capital estrangeiro, os investidores globais exigem o envio do concentrado bruto de terras raras para refinarias estabelecidas em países aliados.
Diante da hipótese de “volatilidades esporádicas” programadas pela China, e do pragmatismo financeiro do Ocidente, que prefere manter o Brasil na posição de fornecedor de matéria-prima barata, qualquer projeto de refino nacional será visto pelos bancos como um empreendimento de alto risco. Como fazer para mudar este cenário complexo, e inserir o país na cadeia global de valor da IA, a partir do segmento de terras raras?
A demanda por ETR tende a crescer 1.500% até o ano de 2050. Segundo a Amcham Brasil, a expansão da cadeia de refino de minerais críticos e terras raras poderá adicionar R$ 192,1 bilhões ao PIB do Brasil até 2050. É de fazer brilhar os olhos de qualquer ministro da Economia e de inspirar qualquer conselho de notáveis.
Eu defendo a tese que, no que tange às terras raras, o Brasil necessita criar pontes a partir de um modelo de diplomacia multilateral. Os países alvo da empreitada de aproximação seriam a China, os Estados Unidos, a Malásia, o Japão e a Austrália.
A China se justifica, por ser o único país com a cadeia produtiva totalmente integrada em grande escala comercial, capaz de fornecer a tecnologia de separação mais eficiente do mundo.
Os Estados Unidos, neste quesito, estão emparedados pela China, que consolidou um monopólio estratégico sobre este tema. No entanto, os americanos são o maior polo mundial de investimentos e de venture capital, dispondo de potencial para atuar como alavanca de financiamento, diante de uma eventual parceria com o Brasil.
A Malásia é uma referência prática de infraestrutura de refino químico e de processamento de grande porte, fora do território chinês. O Japão, por sua vez, é líder em tecnologia para fabricação de ímãs e componentes de alta precisão, usados em motores elétricos, robótica e eletrônicos de defesa. A Austrália é a maior operadora de mineração e pré-processamento fora da China, com empresas de alcance global que lideram os requerimentos de pesquisa mineral no Brasil.
Transformar o Brasil em uma potência global no mercado de terras raras, superando a posição de mero exportador de material bruto, exige bem mais do que estimular a criação de joint ventures e parcerias internacionais. Faz-se fulcral debelar o represamento do capital privado, advindo do medo dos gargalos burocráticos, jurídicos e dos milhares de processos e decisões dos entes regulatórios do país.
Aqui, o Brasil já tem uma solução eficiente. A utilização da plataforma de Inteligência Artificial Regulatória (IAR) da JX IA, atual parceira estratégica da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais) equaciona a temática da volatilidade normativa, provendo previsibilidade frente às etapas decisórias da Agência Nacional de Mineração (ANM).
No caso das terras raras brasileiras, a despeito da premência de uma costura diplomática com viés empreendedor e do contorno do cipoal burocrático a partir do uso de tecnologia, ainda temos tempo de reverter o papel de coadjuvante. Vamos em frente, pois temos um compromisso no que tange ao legado que deixaremos para as gerações futuras.
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.


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