O PAÍS QUE DEU CERTO E O VIZINHO QUE SE ACOSTUMOU A ASSISTIR

Entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a diferença não é o solo, mas a decisão. Um transmutou logística em autonomia; o outro, em mero corredor para a riqueza alheia.

Por Luciano Martins

Imagine um território com população equivalente à do Uruguai, produtividade agrícola comparável à norte-americana e capacidade de rivalizar, sozinho, com a produção de soja dos Estados Unidos. Um espaço em que a produtividade por hectare figura entre as mais altas do planeta, o desemprego é inferior ao de países nórdicos e o agronegócio deixou de ser atividade primária para se consolidar como plataforma industrial. Esse lugar não é uma nação independente. Chama-se Mato Grosso.

Esse resultado não nasceu do acaso, nem de um ciclo conjuntural de commodities. Foi deliberadamente construído. Ao longo de décadas Mato Grosso articulou uma agenda de políticas públicas orientada à retenção de valor, com programas como o “MT Produtivo”, que impulsionaram a verticalização agroindustrial. O resultado está nos números: crescimento médio do PIB de 3,7% ao ano na última década, contra 0,6% do Brasil; desemprego inferior a 3%; valor bruto da produção agropecuária projetado para 2026 em R$ 199 bilhões. Não se tratou de um governo, mas de uma diretriz de Estado: integrar território, estruturar logística, induzir encadeamentos produtivos e converter produção em poder econômico. Houve continuidade institucional, coordenação e, sobretudo, clareza de propósito.

Do outro lado da divisa, compartilhando o mesmo bioma e a mesma fronteira agrícola, Mato Grosso do Sul trilhou outro caminho. Não por ausência de condições, mas por acomodação estratégica. Cresceu, atraiu capital, expandiu safras, acumulou indicadores. Registrou, em 2025, valor bruto da produção de R$ 84 bilhões e concentra o maior volume de investimentos privados do Centro-Oeste, R$ 131 bilhões previstos até 2030 no setor de celulose. Evitou, porém, a pergunta essencial: quem se apropria da riqueza gerada?

O paradoxo intriga. Um estado que atrai o maior volume de investimentos privados da região e que bate recordes consecutivos de produção aparece, nas projeções para 2026, na lanterna do crescimento do Centro-Oeste: 1,2%, contra 2,2% de Mato Grosso e 1,8% de Goiás. Mais investimento, menos resultado. Mais produção, menos desenvolvimento. É o sintoma de uma disfunção estrutural.

Outra contradição se vê no asfalto. A BR-163 é mais do que uma rodovia: é a síntese de dois projetos. Ao norte, foi tratada como eixo de soberania produtiva, com pressão política, coordenação institucional e senso de urgência. Mato Grosso já opera trechos duplicados e integrados à malha ferroviária. Ao sul, tornou-se símbolo de hesitação. Entre concessões fracassadas e duplicações inconclusas há mais de uma década, consolidou-se não apenas um gargalo logístico, mas uma ausência de comando. O que se vê ali não é falha técnica. É escolha. Sem a postura de quem conduz o próprio desenvolvimento, a principal artéria econômica do estado deixou de ser instrumento de integração para se tornar canal de escoamento. Não articula cadeias produtivas internas; acelera a saída da riqueza.

É assim que se forma uma economia de passagem.

O estado funciona como engrenagem eficiente de cadeias cujo centro decisório está fora. A celulose sai em escala; o valor agregado se realiza em outro território. A proteína animal cresce em volume, mas não em complexidade. Produz-se muito. Retém-se pouco. Investir não é estruturar. Crescer não é transformar. Sem encadeamentos produtivos, sem política industrial consistente e, sobretudo, sem capacidade estatal de exigir contrapartidas que enraízem o capital, o crescimento se dispersa. Atrai-se investimento, mas não se captura desenvolvimento.

Doze anos se passaram. Mais de uma década de continuidade administrativa, de discursos reiterados sobre modernização, de anúncios que se repetem como se fossem novidade. O tempo foi generoso com o estado: deu fôlego, recursos, janelas de oportunidade. Mas a generosidade do tempo não substitui a decisão política. Não houve, nesse período, uma aposta comparável à que o vizinho fez. Não se verticalizou o milho, não se estruturou um parque industrial de transformação para a celulose, não se rompeu o ciclo de exportar matéria-prima e importar valor agregado. O que houve, em lugar disso, foi a administração confortável do que já existia, com o brilho de alguns indicadores a ocultar a estagnação estrutural.

Mato Grosso do Sul não precisa competir em volume. Precisa decidir em estrutura. Permanecer como celeiro eficiente de fartura é confortável para indicadores, e insuficiente como projeto de sociedade. Desenvolvimento não se mede apenas pelo que se produz, mas pelo que se distribui em renda, emprego qualificado e capacidade decisória.

No fim, a diferença entre os dois modelos é simples, e decisiva. Em um, a riqueza se acumula, se transforma e se reinveste. No outro, ela circula, atravessa e desaparece.

Luciano Martins é advogado, mestrando em educação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).