O cenário político brasileiro assiste a uma inversão de papéis no uso da desinformação com viés de fé. A circulação de um boato infundado afirmando que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pretende revogar o título de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do país colocou o campo conservador no centro de uma polêmica que historicamente atingia seus adversários. Para o sociólogo Paul Freston, referência internacional nos estudos sobre pentecostalismo e poder, o fenômeno mostra que a direita passou a “provar do próprio veneno”.
A tradição de boatos religiosos nas disputas eleitorais
A disseminação de acusações religiosas não é novidade na história democrática brasileira. Desde o pleito presidencial de 1989, a narrativa falsa de que Luiz Inácio Lula da Silva fecharia templos religiosos foi repetidamente resgatada em disputas eleitorais. Essa tensão remonta a períodos ainda mais antigos: na Assembleia Constituinte de 1986, espalhou-se o rumor de que a Igreja Católica voltaria a ser a religião oficial do Estado.
Freston relata que, em 1991, ouviu do então presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, pastor José Wellington Bezerra da Costa, a alegação infundada de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) articulava para oficializar o catolicismo no país. Hoje, a exploração do boato envolvendo a imagem de Aparecida surge como uma tática para blindar e mobilizar o voto católico em contrapartida ao avanço conservador.
Flávio Bolsonaro e a quebra do “pancristianismo”
A controvérsia em torno do símbolo católico de Aparecida expõe tensões doutrinárias profundas, já que setores evangélicos historicamente criticam o culto a imagens como idolatria, por vezes somando elementos de preconceito contra a representação negra da santa. Contudo, a reação de Flávio Bolsonaro acabou por aprofundar o desgaste com o eleitorado católico.
Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro construiu uma identidade classificada por Freston como pancristã — equilibrando-se entre suas origens católicas e sua proximidade com lideranças neopentecostais —, seu filho enfrenta dificuldades maiores. Ao reagir às acusações atacando a CNBB, o parlamentar cometeu um erro estratégico, fragmentando essa conciliação e demonstrando um nível de aceitação menor nas próprias bases eclesiásticas, agravado pelo desgaste de investigações e escândalos passados.
Da abstenção política à teologia do domínio
A declaração de que o país “será do Senhor Jesus Cristo” não implica necessariamente a instauração formal de uma teocracia, mas reflete uma disputa simbólica no espaço público. O sociólogo traça um paralelo com a Zâmbia da década de 1990, sob a presidência de Frederick Chiluba, que proclamou o país como uma nação cristã em um ato de conotação mística que gerou receios em setores laicos.
No Brasil, a atuação evangélica passou por três etapas estruturais ao longo das últimas décadas:
- Afastamento: a antiga máxima de que “crente não se mete em política”;
- Representação: o lema “irmão vota em irmão”, iniciado na década de 1980 para viabilizar espaço e recursos institucionais;
- Hegemonia: o conceito contemporâneo ilustrado pela frase “chegou a hora da igreja governar”, associado a vertentes da teologia do domínio.
O distanciamento entre a esquerda e os fiéis
Embora Lula tenha conquistado cerca de dois terços dos votos evangélicos no segundo turno de 2002 e 2006, o apoio atual do segmento ao petista gira em torno de 30%. O bolsonarismo conseguiu aglutinar esse eleitorado — majoritariamente feminino, periférico e não branco — transformando sua base original (homens brancos e de maior renda) em um movimento popular abrangente.
Segundo Freston, que aborda o tema em obras como “Protestantes e Política no Brasil”, a esquerda falha ao demonstrar pouca disposição para compreender genuinamente a realidade da fé que mais cresce entre as classes populares. Além disso, iniciativas como escalar a primeira-dama Janja para tentar dialogar com o público evangélico são vistas como equivocadas, já que a imagem da socióloga não encontra boa aceitação dentro dessas congregações.

Relacionadas
Série B: Juventude assume ponta; veja tabela e artilharia
Atlético-GO x América-MG: onde assistir ao vivo e horário
Padrasto é preso após morte de menino de 3 anos em Goiás