O cenário político parlamentar brasileiro passou por uma expressiva reconfiguração em sua representação religiosa. O avanço de nomes competitivos nas redes sociais e o acirramento de disputas internas entre grandes denominações resultaram na queda de figuras tradicionais da política religiosa, ao mesmo tempo em que consolidaram novos protagonistas conservadores no Legislativo.
Derrocada de veteranos e ex-presidentes da bancada
A troca de cadeiras atingiu em cheio o núcleo histórico de articulação no Congresso. Das cinco lideranças que se revezaram no comando da bancada evangélica desde 2018, apenas Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), atual líder de seu partido na Câmara, conseguiu assegurar a reeleição.
Em contrapartida, Gilberto Nascimento (Pode-SP), que exercia a presidência do grupo, não obteve os votos necessários para a titularidade e caiu para a suplência. Outros nomes consolidados amargaram derrotas expressivas: Cezinha de Madureira (PL-SP), Silas Câmara (Republicanos-AM) — parlamentar com quase três décadas de atuação em Brasília — e Eli Borges (PL-TO), que arriscou uma candidatura ao Senado e terminou na terceira colocação no Tocantins.
O revés atingiu também outras figuras conhecidas, como Otoni de Paula, Pastor Eurico (PSDB-PE) e os herdeiros eleitorais do missionário R.R. Soares, cujos filhos não conseguiram vagas estaduais ou federais. Na Assembleia Legislativa de São Paulo, a Frente Parlamentar Evangélica encolheu consideravelmente com a perda de dez integrantes, incluindo insucessos de candidatos como David Soares, Daniel Soares e Edna Macedo na corrida pelas urnas.
Força digital e a nova geração conservadora
Apesar da derrocada da velha guarda, o segmento manteve expressivo peso eleitoral, impulsionado por congressistas com forte presença digital e discursos alinhados ao conservadorismo contemporâneo. Puxadores de votos como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) despontaram entre os mais votados do país, acompanhados pelo desempenho destacado de André Fernandes (PL-CE).
Outra novidade entre os eleitos foi Guilherme Kilter (Novo-PR), líder de jovens da Primeira Igreja Batista de Curitiba, que conquistou uma cadeira na Câmara com cerca de 270 mil votos. Sobre a transformação no perfil do parlamento, o reeleito Marco Feliciano (PL-SP) declarou que o ciclo de renovação é um movimento natural na política, ressaltando que a defesa de ideias supera nomes e que influenciadores exercem hoje papel fundamental na memória do eleitor.
Influência mantida por Silas Malafaia
Em meio às mudanças, o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, reafirmou seu poder de mobilização eleitoral. Ao todo, o religioso declarou apoio a 36 postulantes ao Senado Federal, emplacando 20 deles vitoriosos na disputa.
Na Câmara dos Deputados, além de Cavalcante e Feliciano, foram reeleitos sob sua chancela os parlamentares goianos Felipe Martins (PL-GO) e Fábio Souza (PL-GO). Malafaia também estendeu suas vitórias aos legislativos estaduais com as eleições de Lisboa (PL), Sargento Neto (PL-PB) e Alexandre Isquierdo Malafaia — que, apesar de não possuir parentesco com o pastor, herdou politicamente a base de Samuel Malafaia após cinco mandatos deste na Assembleia Legislativa.
Duelo entre ramos da Assembleia de Deus
O pleito também serviu de palco para a rivalidade histórica entre ministérios da Assembleia de Deus. O Ministério do Belém obteve vantagem sobre o Ministério Madureira, garantindo a permanência do deputado federal Paulo Freire (PL) e da deputada estadual Marta Costa (PSD).
O resultado impulsionou declarações de José Wellington Júnior, principal líder do Belém, que ironizou tentativas rivais de ensinar sua igreja a atuar politicamente. Já o Ministério Madureira sofreu perdas tanto com a não reeleição de Cezinha e Oseias quanto com as tentativas frustradas dos novatos Elias e Rogério, todos filiados ao PL.
O desfecho das eleições evidencia que a chancela exclusivamente denominacional deixou de ser garantia absoluta de sucesso eleitoral. A articulação entre redes sociais, posicionamento incisivo na polarização ideológica e novas formas de comunicação tornaram-se fatores determinantes para o poder evangélico no Parlamento.


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