Uma megaoperação militar deflagrada pelas forças de segurança da Colômbia terminou com dezenas de mortos e desencadeou forte repercussão internacional. Em um pronunciamento em vídeo gravado em frente a uma fileira de corpos ensacados, o presidente Abelardo de la Espriella apresentou o balanço da ofensiva contra rebeldes armados e sinalizou uma guinada radical na doutrina de segurança pública do país.
Balanço e impacto da Operação Azarías
Realizada na zona rural de Miraflores, no departamento de Guaviare, a ação batizada de Operação Azarías mirou o Frente Carolina Ramírez, dissidência ligada ao comando de Iván Mordisco. O grupo rejeitou as negociações do histórico acordo de paz de 2016 e atuava fortemente na região amazônica.
Durante a ofensiva militar, 23 guerrilheiros foram mortos e outros seis acabaram presos, entre eles um dos líderes, identificado pela alcunha de Víctor. Entre as baixas fatais confirmadas pelas autoridades está o chefe local conhecido como Tigre ou Pintado. O contingente do exército apreendeu 28 fuzis, quatro metralhadoras, três pistolas e farto material explosivo. Uma criança resgatada no acampamento foi encaminhada aos serviços de proteção do Instituto Colombiano de Bem-Estar Familiar.
Polêmica sobre menores de idade e exibição dos corpos
O tom triunfante da divulgação oficial gerou forte atrito com entidades humanitárias e opositores políticos. A defensora do Povo, Iris Marín, condenou o uso da imagem dos cadáveres na comunicação estatal, alertando para o risco de reviver o trauma dos históricos “falsos positivos”, embora tenha ressalvado que não há indícios de fraude neste caso específico.
O cenário tornou-se ainda mais delicado após o Instituto Nacional de Medicina Legal confirmar a presença de dois menores de idade entre os mortos recolhidos no local. Divergindo ligeiramente da contagem do Executivo, o órgão pericial registrou a entrada de 24 corpos, dos quais 20 já foram identificados (12 homens e oito mulheres). Em resposta, o Ministério da Defesa alegou que os adolescentes exerciam papel ativo de combate e que a ação seguiu parâmetros legais. Contudo, a Justiça de Bogotá já emitiu ordem cautelar exigindo que bombardeios aéreos sejam evitados diante da suspeita de crianças recrutadas à força.
O fim da política de negociação anterior
A demonstração de força bélica ocorre logo no primeiro mês de mandato de Espriella, marcando uma ruptura frontal com as diretrizes do antecessor Gustavo Petro. Sob o antigo plano de conciliação simultânea, o número de membros em facções ilegais disparou cerca de 90%, saltando de 15 mil combatentes no fim de 2022 para quase 29 mil em meados de 2026, segundo dados da ONG Fundación Ideas para la Paz.
Esse vácuo de controle agravou a violência no campo: o Instituto de Estudios para el Desarrollo y la Paz mapeou 466 assassinatos de lideranças comunitárias e ex-guerrilheiros entre 2024 e o início de agosto de 2026, além de 78 massacres registrados somente neste ano. Nos dias finais de sua gestão, o próprio Petro revogou as credenciais de negociadores das dissidências, reativando mandados de prisão pendentes.
Nova estratégia de segurança e aliança com os EUA
Desde que assumiu o poder, a nova gestão transferiu mais de uma centena de presidiários estratégicos para penitenciárias de segurança máxima e anunciou planos para construir grandes complexos prisionais. Em retaliação à escalada militar inicial — que abateu figuras como o líder apelidado de El Ruso —, grupos criminosos chegaram a explodir um carro-bomba na Rodovia Pan-Americana e executaram ataques com drones em Antioquia.
Ao classificar o cerco em Guaviare como o revés mais severo imposto à criminalidade nos últimos doze anos, o governo colombiano reafirmou que manterá a linha dura contra extorsões, narcotráfico e recrutamento ilegal. O movimento também marca uma reaproximação diplomática direta com Washington, abrindo caminho para a adesão da Colômbia à coalizão antidrogas norte-americana e um pacote de cooperação militar avaliado em US$ 1 bilhão.


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