O Brasil produz conhecimento.
Todos os dias, cientistas estudam novos tratamentos e analisam dados, universidades formam profissionais, empresas desenvolvem tecnologias, instituições acumulam experiências e milhares de pessoas encontram soluções para problemas que afetam a vida real. Ainda assim, existe uma pergunta que precisamos fazer – e exige coragem: o que o Brasil está fazendo com todo o conhecimento que produz? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes para o futuro do país.
Estamos acostumados a falar em políticas de educação, ciência, tecnologia, inovação e industrial. Todas são importantes. O Brasil também possui iniciativas e estratégias voltadas à ciência, tecnologia e inovação, com prioridades relacionadas à pesquisa, inovação empresarial, soberania tecnológica e desenvolvimento social. Mas existe algo maior por trás de todas essas agendas.
Conhecimento. Ele não começa quando o cientista publica um artigo sobre os resultados da sua pesquisa mais recente. Ele começa na criança que é treinada a fazer perguntas, no professor que ensina alguém a pensar, no estudante que descobre uma nova possibilidade, no aluno bolsista que investiga uma causa ou solução, no profissional que transforma experiência em solução, na empresa que desenvolve uma tecnologia, no gestor que utiliza evidências para tomar decisões e também no cidadão que tem acesso a ferramentas para distinguir informação confiável de afirmação infundada.
Por isso, conhecimento não deveria ser tratado como um assunto restrito às universidades ou aos centros de pesquisa. Ele é uma questão de desenvolvimento nacional. Pois um país que não consegue transformar conhecimento em decisão, inovação, produtividade e qualidade de vida, perde uma parte importante do valor que ele próprio produz.
É real o cenário de haver excelentes cientistas e, ainda assim, existir dificuldades para transformar pesquisa em produto. É possível ter universidades de qualidade e não conseguir aproximá-las suficientemente das necessidades da sociedade. É possível produzir dados e tomar decisões sem utilizá-los adequadamente. É possível formar profissionais altamente qualificados e, ao mesmo tempo, não criar condições suficientes para que esse talento permaneça no país e gere novas oportunidades para posteriormente captá-los de volta ao país, buscando mitigar a fuga de cérebros.
A situação, portanto, não é apenas produzir conhecimento. É criar condições para que ele conhecimento circule. Essa circulação precisa acontecer entre universidade e empresa, entre cientistas e governo, entre ciência e educação, entre tecnologia e sociedade.
E precisa acontecer também descentralização geográfica. Um projeto nacional de conhecimento precisa reconhecer que o Brasil possui questões, talentos e oportunidades muito diferentes em seus diversos territórios. O conhecimento produzido na Amazônia pode ajudar a responder questões estratégicas para o mundo. A ciência desenvolvida no Nordeste pode gerar soluções para desafios que também existem em outras regiões do Brasil. A pesquisa realizada no Centro-Oeste pode contribuir para agricultura, pecuária, saúde, biodiversidade, tecnologia e desenvolvimento. Grandes universidades, Institutos e centros de pesquisa podem fazer parte de uma mesma visão nacional.
Mas, para isso, é fundamental deixar de enxergar conhecimento como uma coleção de iniciativas isoladas, prêmios e títulos. É preciso começar a enxergá-lo como infraestrutura nacional. Estradas movimentam pessoas e mercadorias. Redes de comunicação movimentam informações. Sistemas de energia movimentam a economia. Uma sociedade baseada no conhecimento precisa de redes capazes de movimentar ideias, competências, descobertas e soluções.
E isso exige estratégia, continuidade, investimento e também uma mudança de mentalidade. Durante muito tempo, discutiu-se ciência principalmente quando faltavam recursos, quando havia uma crise ou quando surgia uma grande descoberta. Talvez precisemos fazer uma pergunta diferente: Que país queremos construir e que conhecimento precisamos produzir para chegar até lá? Essa pergunta muda a direção da conversa. Em vez de perguntar apenas quanto vamos investir em pesquisa, podemos perguntar quais são os problemas nacionais que precisamos ser capazes de resolver. Em vez de pensar apenas em quantidade de diplomas, podemos pensar em quais competências o país precisará nos próximos dez, vinte ou trinta anos. Em vez de discutir tecnologia apenas quando uma novidade chega ao mercado, podemos refletir sobre quais capacidades tecnológicas são estratégicas para a soberania brasileira.
Em vez de tratar inovação como uma palavra associada apenas às empresas, podemos compreendê-la como parte de uma cultura nacional de transformação. E existe uma urgência adicional – a velocidade das mudanças tecnológicas está tornando o conhecimento um dos principais elementos de poder econômico e estratégico. Inteligência artificial, biotecnologia, semicondutores, tecnologias quânticas, novos materiais, energia e dados já fazem parte de uma disputa internacional por capacidade tecnológica e autonomia.
Nesse cenário, depender permanentemente do conhecimento produzido por outros países não se trata mais apenas de uma questão econômica e já caminha para não ser mais a realidade do Brasil. É também uma questão de autonomia. Pois um país precisa saber importar conhecimento quando isso for necessário. Mas também precisa ter capacidade de produzir conhecimento próprio, adaptá-lo à sua realidade e transformá-lo em soluções. Isso é soberania.
Por isso, defender uma política nacional de conhecimento não significa defender apenas sobre mais universidades, mais laboratórios ou mais recursos para pesquisa. Significa defender uma visão de país, na qual a educação prepare pessoas para pensar e a ciência produza respostas para situações relevantes. Empresas que consigam transformar conhecimento em inovação e decisões públicas sejam cada vez mais capazes de considerar evidências para a tomada de decisão. É sobre transformar tecnologia em instrumento de desenvolvimento, e não apenas de consumo. E que o conhecimento produzido no Brasil consiga chegar ao brasileiro.
Talvez essa seja uma das grandes tarefas que temos pela frente. Precisamos deixar de perguntar apenas quanto conhecimento o Brasil produz. Precisamos responder quanto desse conhecimento consegue transformar o Brasil. E quando tudo isso acontece ao mesmo tempo, conhecimento deixa de ser apenas patrimônio intelectual. Passa a ser patrimônio nacional. É por isso que precisamos avançar na discussão sobre uma política nacional de conhecimento. Não como substituição às políticas que já existem e estão sendo implementadas, mas como uma visão capaz de conectá-las, na qual compreenda que educação, ciência, saúde, tecnologia, inovação, economia e desenvolvimento não são assuntos segregados. São partes de uma mesma pergunta: o que o Brasil será capaz de fazer quando a transformar conhecimento em futuro dentro do seu próprio território?
Este artigo expressa exclusivamente a reflexão da autora, não representando posicionamento, manifestação ou comunicação oficial que represente qualquer órgão, instituição ou entidade com a qual mantenha vínculo profissional.
Flavia Rodrigues da Silva. Neurocientista, Ph.D.




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