Em junho de 2026, o mercado de infraestrutura do Brasil foi marcado por uma das maiores transações do setor: a assunção da ope1radora portuária CLI (Corredor Logística e Infraestrutura) pelo AD Ports Group, um conglomerado de Abu Dhabi controlado pelo fundo soberano ADQ. A transação foi fechada por US$ 835 milhões. O acordo garante ao grupo árabe 100% das ações da CLI Norte (Porto de Itaqui, MA) e 80% da CLI Sul (Porto de Santos, SP).
A CLI atua com foco na exportação de commodities agrícolas, e se faz crucial para o agronegócio brasileiro. Em 2025, ela movimentou 17 milhões de toneladas de grãos e açúcar. A compra tem, por pano de fundo, a criação de um corredor logístico capaz de integrar o fluxo agrícola do Brasil diretamente ao Abu Dhabi Food Hub, nos Emirados Árabes Unidos (EAU). Este megaprojeto foi concebido para se tornar o maior mercado atacadista global de alimentos, e o principal ecossistema do gênero no Oriente Médio.
No setor portuário brasileiro, as alterações de controle não são meros atos societários privados; elas dependem de avais regulatórios rígidos, que avaliam a capacidade técnica do novo operador.
No transcorrer do processo de aquisição da CLI pelo AD Ports Group, por exemplo, a ANTAQ (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) se fez presente como o órgão regulador de Estado. As atribuições da agência iniciaram quando da análise prévia (habilitação) e do julgamento (aprovação), continuando com a fiscalização no pós-fechamento.
Desta feita, mesmo após a aprovação da transferência de controle, não se extinguem as obrigações contratuais assumidas junto ao poder concedente. Em casos de falha da nova gestão em manter o desempenho operacional é facultada, à ANTAQ, a aplicação de sanções que variam de multas, à abertura de processo de caducidade do arrendamento.
A posição de vanguarda brasileira no agro, e no setor de minerais estratégicos, facilita prognosticar um interesse crescente de investidores internacionais na infraestrutura portuária do país. Ou seja, o ocorrido com a CLI tende a proliferar, descortinando uma janela de oportunidade ímpar.
No entanto, Investidores de longo prazo exigem previsibilidade sobre o fluxo de caixa futuro. O cipoal burocrático brasileiro, acrescido das mudanças frequentes com o “jogo” em andamento, afastam o capital internacional para outras paragens.
Os contratos de arrendamento demandam revisões, pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro ou prorrogações antecipadas de prazo. Quando mal fundamentados ou fora dos critérios técnicos, geram atraso, travando investimentos essenciais.
Por mais que se discuta a desregulamentação, ela leva tempo e exige negociações as mais variadas, algumas vezes envolvendo tratativas entre os Poderes Executivo e Legislativo. A janela de oportunidade para o setor portuário é um fato, mas o tempo, senhor de todos os destinos, não se constitui em aliado.
Como solução paralela, o que se observa em sociedades mais maduras é a proliferação do uso de tecnologias de IA, para contornar os custos da burocracia regulatória. No setor portuário mundial, e no Brasil em especial, a adoção de IA Regulatória tende a se constituir em diferencial competitivo para os investidores.
Uma IA regulatória tem o poder de transformar o gerenciamento de riscos de reativo (remediar multas e intimações após o recebimento), para proativo. Ao estudar o histórico técnico sobre pedidos de reequilíbrio e renovação contratual, os controladores sabem exatamente quais dados e métricas adotar.
A viabilidade de uso de uma IA Regulatória tem o poder de contornar os entraves burocráticos brasileiros. Com essa aliada, o país da segurança alimentar e da diversidade mineral tem potencial para captar investimentos bilionários junto a fundos soberanos e de Venture Capital, inaugurando um ciclo de prosperidade e de geração de riquezas para o seu povo.
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.


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