Venture Capital (VC), inovação e IA formam o tripé de um ecossistema de realimentação positiva, onde o capital de risco encontra a oportunidade técnica, para gerar valor em larga escala. Startups de IA possuem um perfil de risco e de custo extremamente elevados, devido aos gastos massivos com processamento, energia e capital humano. Neste cenário, os VCs entram onde o financiamento tradicional não chega, assumindo a incerteza em troca de participações societárias (com o objetivo de financiar o chamado crescimento exponencial).
A relação entre VC e IA varia drasticamente, dependendo da estratégia de cada país.
Os Estados Unidos, com 75% do volume global de VC em IA, operam com o modelo “Frontier Leadership” (ditando a fronteira tecnológica). Naquele país, o capital de risco tem uma relação simbiótica com os laboratórios de pesquisa (como OpenAI, Anthropic, Google DeepMind), com foco em infraestruturas de data centers, LLMs e domínio da computação em nuvem. A China e a Coréia do Sul, por sua vez, têm o capital de risco coordenado ou incentivado por políticas estatais de longo prazo. Na China, onde a estratégia prioriza a implantação em massa, o capital flui para empresas que integram a IA em cidades inteligentes, veículos autônomos e sistemas de vigilância. O foco do VC chinês está na aplicação eficiente, com uma escala que nenhum outro mercado consegue replicar.
Na Coréia do Sul o VC está focado na convergência entre IA e hardware. O investimento é expressivo em semicondutores, robótica e automação industrial.
A Índia se destaca como exemplo promissor de “crescimento pelo problema-solução”. O VC, naquele país, financia Deeptechs que resolvem os desafios da estrutura local (educação, saúde e logística). O ecossistema indiano se encontra validado pela premissa: “se funciona em escala na Índia, funciona em quase todo o
mundo”. É um modelo de eficiência de capital (fazer mais com menos), que atrai investidores globais. Israel se tornou uma potência global, ao aplicar um modelo em que a IA se vê associada a ferramenta de precisão. Naquela nação, o VC financia startups que possuem duas características fundamentais: a) Dualidade de uso (muitas tecnologias de IA em Israel nascem em unidades de inteligência, focadas em defesa ou segurança cibernética, e posteriormente são convertidas em produtos comerciais de altíssimo valor, nos setores financeiro e de robótica industrial); b) Foco em verticais de alto impacto (o VC investe em IA aplicada a domínios complexos).
Considerando que em algum momento iremos estruturar um projeto de país para o Brasil, o capítulo destinado à IA e ao ganho de competitividade deverá se encaixar em um modelo distinto, amalgamado com as nossas peculiaridades: IA aplicada aos segmentos produtivos já consolidados (no caso o agro, em monitoramento de safras e agroindústria, onde temos proeminência global já consolidada) e aos nossos “gaps” sociais (a saúde pública e a aceleração de competências do nosso capital humano).
Dentro deste modelo, o VC entraria para viabilizar duas vertentes: a) criar condições para potencializar a implantação de infraestrutura de data centers (uma espécie de motor para o REDATA); b) financiar startups brasileiras destinadas a criar ou importar inteligência e adequá-la aos setores prioritários do agro, da saúde pública e da aceleração do capital humano. No médio prazo, esta estratégia transformaria a IA aplicada no Brasil em algo muito difícil de copiar por um concorrente de fora. Ao mesmo tempo, produziria ganho de produtividade para o já consolidado segmento do agro, catalizaria a entrada de recursos internacionais como elemento de apoio à inovação, e atuaria como um propulsor para as ações sociais. Podemos transformar o Brasil num adaptador de elite em IA, e ter no VC uma peça estratégica para integrar esta IA ao fluxo da nossa economia e aos anseios da nossa sociedade.
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.






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