Evandro da Silva Soares
O Brasil exporta petróleo bruto para a Ásia em volumes recordes. O pré-sal preencheu o vácuo deixado pelo fechamento de Ormuz durante o conflito entre Estados Unidos e Irã, e a receita cresceu. Seria motivo de celebração, se não fosse também motivo de distração.
Em 13 de abril de 2026, Washington e Jacarta assinaram o Major Defense Cooperation Partnership (MDCP), formalizando a possibilidade de mais de 500 atividades militares conjuntas com foco operacional no Estreito de Malaca.
Sete dias depois, um navio de guerra americano transitava pelo estreito com confirmação pública da Marinha indonésia, uma demonstração inequívoca de que o acordo não é retórico. Simultaneamente, o presidente Donald Trump estendia a trégua com o Irã, preservando Ormuz provisoriamente estável.
Os dois movimentos não são coincidência. São estratégia.
A Anatomia do Risco
O Estreito de Malaca concentra entre 25% e 40% do comércio marítimo global e parcela expressiva do petróleo destinado à China, ao Japão e à Coreia do Sul. Para Pequim, que denomina sua dependência da passagem do chamado “dilema de Malaca”, a nova arquitetura militar americana no estreito representa uma capacidade de monitoramento e potencial interdição sobre sua principal rota de abastecimento. A resposta chinesa raramente será imediata e militar. Será, antes, comercial, diplomática e gradual e todas as suas formas atingem o Brasil.
China, Japão e Coreia do Sul responderam conjuntamente por cerca de 32% das exportações brasileiras em 2025, frente aos 4% do Oriente Médio. Toda essa corrente comercial passa por Malaca ou por seus desvios, como Sunda e Lombok, alternativas mais longas e mais caras.
Quatro Camadas, Um Sistema
Uma Pesquisadora da Universidade de Illinois Urbana-Champaign – Estados Unidos, citada pela BBC afirmou que a atual arquitetura de segurança em Malaca “não está projetada para gerenciar a concorrência entre grandes potências” e que as repercussões para o comércio mundial seriam “indiretas, mas reais: prêmios de seguro mais altos, maior percepção de risco e maior volatilidade”. Isso ativa, em sequência, os vetores que compõem o sistema de risco ao Brasil:
Primeiro, seguros marítimos: o Joint War Committee de Lloyd’s reclassifica rotas com base em percepção de risco, não em conflito declarado, como demonstrado no Golfo Pérsico antes mesmo dos ataques do Irã.
Segundo logística: o Brasil já opera no limite físico, como a capacidade de armazenagem de 231,1 milhões de toneladas contra safra projetada de 353,4 milhões pela CONAB, com os principais terminais portuários operando acima do limiar de saturação de 65% definido pela OCDE.
Terceiro, reação chinesa: qualquer instabilidade que envolva a China atinge o Brasil de forma desproporcional, pois a China não é apenas um comprador, é o eixo de estabilidade do modelo exportador brasileiro.
Quarto, trade finance: bancos retraem crédito em cenários de risco percebido elevado; cartas de crédito encarecem ou tornam-se indisponíveis; o fluxo trava antes de qualquer navio encostar.
O Paradoxo e a Urgência
O dividendo atual, o petróleo brasileiro substituindo o do Golfo nas refinarias asiáticas, é real, mas conjuntural e dependente da permanência da tensão em Ormuz. Se Ormuz normalizar e Malaca simultaneamente tornar-se zona de risco percebido, o Brasil poderá perder os dois corredores no mesmo ciclo. A boa notícia de hoje financia o risco de amanhã.
A resposta exige ação estrutural: diversificação efetiva da pauta exportadora. Investimento urgente em armazenagem e capacidade portuária. A criação de instrumentos públicos de hedge de trade finance e seguro marítimo no âmbito do BNDES e do Banco Central e o posicionamento diplomático ativo junto à Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), preservando relações simultâneas com Washington e Pequim.
O Estreito de Malaca não aparece nos mapas de risco do Ministério da Fazenda nem nas atas do Conselho Monetário Nacional. Deveria aparecer. Porque quando a percepção de risco se instala naquelas águas, ela não para na Ásia, mas ela chega ao Arco Norte, ao Porto de Santos e à soja do Mato Grosso. E o Brasil, como demonstra sua própria série histórica de exposição, tende a chegar tarde demais à discussão.


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