Israel é uma potência global em tecnologia. Aquela nação tem, neste setor, o principal pilar da sua economia. O setor tecnológico de Israel responde por 20% do PIB, 50% das exportações, 12% da força de trabalho e reverte 5% do PIB para P&D. O país possui um ecossistema de inovação ímpar, contando com a maior concentração mundial de startups por habitante, se posicionando entre os top 5 em número de empresas unicórnio, dispondo de um mercado de Venture Capital robusto e tendo aderido, em 2025, à iniciativa Pax Silica.
A Pax Silica merece destaque especial, num mundo pautado pela geopolítica. Ela foi lançada pelos Estados Unidos, tem em Israel um dos membros fundadores, e sinaliza uma mudança profunda na organização da economia global. A partir desta iniciativa, emerge um novo modelo de blocos tecnológicos, nos quais a segurança nacional, a política industrial e a liderança tecnológica passam a caminhar juntas. Por sua vez o Brasil, no agro e no setor de minerais, se constitui em uma potência global de primeira grandeza. O agro, com 50% das exportações do país, e os minerais, que aglutinam outros 10%, são a espinha dorsal do comércio exterior brasileiro.
O país é um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, abastece em maior ou menor escala 150 países, e se destaca com uma plêiade variada de produtos (soja, carnes, suco de laranja e exportação de alimentos industrializados).
A explosão econômica da Ásia, em especial da Índia a qual convive numa conjuntura de forte expansão econômica associada com crescimento populacional, aponta para uma revolução alimentar no curto prazo. O continente asiático comerá mais e melhor, abrindo uma janela de oportunidade para a prevalência brasileira no setor de alimentos.
No que tange aos minerais, em especial os chamados críticos (destacando-se as tão propaladas terras raras, o grafite e o nióbio), o país possui papel de destaque. O Brasil detém a maior reserva de nióbio do mundo (94% das reservas globais), a 2ª maior de terras raras (cerca de 23% do total já mapeado) e a 2ª maior de grafite (25% das reservas conhecidas).
As terras raras, uma vez refinadas, respondem pela miniaturização das tecnologias disruptivas destinadas a motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores, equipamentos de medicina e defesa.
A questão é que, enquanto o Brasil surge como o detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, a sua participação no refino é insipiente. Um parceiro com elevada capacidade de inovação, com proeminência em alta tecnologia, segurança e defesa, poderia encurtar o caminho para o surgimento de um player global, capaz de disputar espaço num mercado estratégico para os desígnios do comércio internacional. Israel é a “nação high tech, das startups e da inovação” e o Brasil se constitui no “celeiro do mundo” e num “ator da maior grandeza no segmento de minerais estratégicos”. Da união destes dois países complementares, adviria um bloco capaz de exercer uma influência geopolítica relevante.
A cultura e a capacidade de inovação de Israel estão longe de serem alcançadas pelo Brasil. Por outro lado, a escala monumental do agro e do segmento de minerais críticos do Brasil, jamais será obtida por Israel. A tese desta união pode se constituir em um sonho… Shimon Peres, do alto do seu brilhantismo, costumava dizer “Olhem para o futuro. Não usem o cérebro para recordar. Usem-no para imaginar”.
Mauro Souza
Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República. Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais). Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group. Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.




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