OS ELEMENTOS DE TERRAS RARAS, A POSIÇÃO DO BRASIL E A GEOPOLÍTICA GLOBAL

Os elementos de terras raras (ETR) se constituem em um grupo de 17 elementos químicos (destacando-se o neodímio, térbio, lantânio, cério e ítrio) obtidos a partir de depósitos em minerais como monazita, bastnasita ou argilas iônicas. Estes 17 elementos possuem propriedades únicas, cruciais para a miniaturização de tecnologias adotadas em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, computadores e materiais para medicina e defesa. A disputa por estes recursos já impulsiona as principais tensões e alianças globais.

A obtenção dos ETR se dá a partir da mineração das rochas e argilas, seguida da transformação do minério bruto em concentrado, da separação dos elementos (processo químico de alta tecnologia) e do refino (purificação de cada elemento, para fins de utilização pela indústria). Com a rapidez da evolução tecnológica, a demanda desses elementos deve crescer 1.500% até o ano de 2050.

Mais da metade das reservas conhecidas de terras raras se concentram na China e no Brasil. A China possui 46% das reservas globais e o Brasil, em segunda posição, dispõe de 23%. No entanto, os números sofrem uma transformação após a aplicação da cadeia de valor, necessária para o refino e decorrente uso pela indústria. A China controla o mercado dos produtos já refinados e purificados, com 85% do volume global. O Brasil gera apenas 0,1%. A liderança chinesa em processamento, refino e tecnologia industrial, ligada a terras raras, foi construída ao longo das últimas décadas.

Apenas para contextualizar, um kg de minerais concentrados de terras raras custa U$ 30,00. O térbio, já refinado e purificado (um dos 17 ETR e que possui larga utilização em semicondutores, sonares, medicina nuclear e ímãs permanentes), atinge um valor médio, por kg, de U$ 950,00. Apenas a título de comparação, o kg do ferro é negociado a U$ 0,10.
O setor de terras raras está atraindo um alto volume de venture capital e investimentos estratégicos internacionais, impulsionado pela busca de alternativas à produção chinesa. Começam a surgir, para projetos brasileiros, financiamentos advindos dos Estados Unidos, Canadá e França.

As ações de empresas com projetos de terras raras, no Brasil, subiram de forma expressiva em 2025. É o caso da St George Mining, dona do Projeto Araxá, em Minas Gerais, cujas ações acumularam alta de 390% em 2025. A também australiana Viridis Mining and Minerals teve um ano igualmente positivo no Brasil, com as ações da empresa na bolsa da Austrália subindo 260% em 2025. A companhia é dona do Projeto Colossus, localizado no sul de Minas Gerais, que abriga reservas de argilas iônicas. O projeto recebeu cartas de intenção de financiamento dos governos da França e do Canadá.

A Meteoric Resources, que teve sua licença prévia concedida em 2025, registrou ganhos de mais de 80% em suas ações. A empresa é dona do Projeto Caldeira, um dos maiores e mais avançados projetos de terras raras em argilas de adsorção iônica do mundo, localizado no Complexo Alcalino de Poços de Caldas.
Em paralelo, o governo brasileiro negocia um tratado com a Índia, focado em minerais críticos e terras raras. O Executivo brasileiro busca manter a autonomia e garantir que o processamento desses materiais aconteça em território nacional.

Os Estados Unidos estão financiando ativamente projetos de terras raras no Brasil, com destaque para um aporte de US 3 bilhões na mineradora Serra Verde em Minaçu (GO), anunciado em fevereiro de 2026. A iniciativa do governo americano prevê um pacote mais amplo de financiamentos, que pode envolver outros projetos de minerais críticos (lítio e terras raras) no Brasil, através do EXIM Bank e do DFC (US International Development Finance Corporation).

O Brasil vem, cada vez mais, despertando o interesse das potências globais. A nossa questão fulcral, frente ao tema ETR, reside no vetor temporalidade e planificação. Enquanto a nossa política industrial – NIB foi lançada em 2024, dentro de uma visão reativa (recuperar a defasagem tecnológica e de produtividade), a China vem trabalhando desde 2015, para se tornar um ator global de primeira grandeza na produção de manufatura com alto valor agregado.
No caso das terras raras, ainda dá tempo de reverter o papel de coadjuvante, e surfar dentro de um plano consistente e típico de um protagonista. Vamos em frente, pois temos um compromisso no que tange ao legado que deixaremos para as gerações futuras…

Mauro Souza

Mauro Souza é engenheiro elétrico com pós-graduação em robótica e mestrado em telecomunicações.
Atuou como gestor do SERPRO (Serviço Federal de Processamento de Dados), diretor de tecnologia no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e no STF (Supremo Tribunal Federal) e diretor de tecnologia na Presidência da República.
Foi presidente do Conselho de Modernização dos Correios, e diretor executivo de empresas nacionais e multinacionais. No momento é sócio fundador e CEO da Quantum Tecnologia, sócio e CEO da BX Analytics, CEO da JX Tecnologia e IA e diretor da Regional Brasília da FUNCEX (Fundação de Comércio Exterior e Relações Internacionais).
Autor do livro “Política de Tecnologia da Informação no Brasil: um Caminho para o Século XXI”, foi professor de pós-graduação da Universidade Católica de Brasília e eleito IT Leader pelo International Data Group.
Foi membro do Comitê Executivo do Governo Eletrônico (destinado a instituir a política de tecnologia da informação do Governo Brasileiro) e membro do Comitê Executivo para a Política de Segurança das Informações do Governo Federal.