Xico Sá lança livro sobre ascensão, fuga e morte de PC Farias

Xico Sá publica diário gonzo sobre saga em busca do tesoureiro PC Farias

Os bastidores do esquema que desestabilizou a Nova República e culminou na queda de Fernando Collor ganham um relato eletrizante na obra “O Tesoureiro: O Esquema de Corrupção, a Fuga e a Morte de PC Farias”, lançada pela Editora Todavia. Escrito pelo jornalista Xico Sá, o livro reconstrói a trajetória de Paulo César Farias com elementos do jornalismo gonzo e da literatura policial, acompanhando desde os primeiros sinais de negociatas até o controverso desfecho do operador financeiro, em 1996.

A apuração e os excessos da era Collor

A série de investigações que deu origem à obra começou no início de 1990, durante uma viagem de cobertura ao interior de São Paulo. Ao notar a ausência incomum de movimento em uma boate de Presidente Prudente, o repórter descobriu que dezenas de funcionárias da casa noturna haviam sido recrutadas para uma reunião privada em um hotel da região, frequentado por políticos e empresários. Naquela madrugada, acordos e contratos eram costurados nos quartos ao som de sucessos sertanejos e baladas pop internacionais.

Inspirado pela postura contestadora de Hunter S. Thompson, o repórter infiltrou-se no próprio hotel para documentar o clima das comemorações. O episódio revelava, já nos primeiros meses de mandato, as contradições de uma gestão que se elegeu sob o discurso de moralização do Estado, mas articulava esquemas bilionários nos bastidores.

De vendedor de carros a articulador do poder

Antes de se transformar no pivô do processo de impeachment em 1992, o operador financeiro era conhecido em Alagoas pela alcunha de “Paulinho Gasolina”. Na década de 1960, ele negociava automóveis usados e construía uma imagem de riqueza com veículos de luxo emprestados, como Galaxies, Mavericks e Opalas, usando amigos como motoristas particulares para impressionar a alta sociedade local.

A habilidade cênica impulsionou sua trajetória até o comando financeiro da campanha presidencial de 1989. Com perfil extravagante e retórica que misturava citações de Nelson Rodrigues a discursos inflamados na CPI do Collorgate, ele se estabeleceu como uma das figuras centrais da política nacional antes de cair em desgraça perante a opinião pública.

Uma fuga cinematográfica pelo mundo

Com o cerco judicial e a ordem de prisão, o tesoureiro protagonizou uma fuga que remetia às cenas clássicas da teledramaturgia brasileira. A travessia clandestina passou por cidades estratégicas da América do Sul, como Buenos Aires e Montevidéu, e alcançou a Europa, em Londres, até terminar em Bangkok, na Tailândia.

Grampos e paranoia nos anos 1990

O avanço das reportagens gerou consequências diretas para o próprio jornalista. Durante o período mais tenso da apuração em São Paulo, o autor descobriu grampos ilegais instalados na linha de telefone fixo de sua residência, na rua Frei Caneca, sem ter certeza se a vigilância partia de agentes estatais ou de alvos políticos incomodados com as denúncias de financiamento ilícito.

A reconstituição atinge seu clímax ao abordar a morte trágica de PC Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino, encontrados sem vida em uma praia alagoana em 1996. Ao unir memórias de redação, rigor investigativo e técnica narrativa dos clássicos de detetive, a obra analisa um personagem que espelhou as entranhas da corrupção e cujos reflexos permanecem vivos na história política contemporânea.