Diretores da Fifa renunciam após plano de Infantino de vender ‘ações’

Dois dirigentes do alto escalão da FIFA criticaram nesta sexta-feira (31) o plano do presidente Gianni Infantino de vender parte dos negócios ligados à Copa do Mundo para investidores privados. Carlos Cordeiro, principal assessor da presidência da entidade e ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos, pediu demissão em protesto.

“Não posso permanecer em silêncio enquanto a FIFA considera vender uma participação na Copa do Mundo”, afirmou em comunicado.

Ele classificou a proposta como “um mau negócio para o futebol”. Segundo Cordeiro, a medida colocaria em risco um dos ativos mais valiosos do esporte.

Outro dirigente da entidade, o diretor de operações Kevin Lamour, também fez duras críticas ao projeto. Em declaração à Associated Press, ele afirmou que os funcionários da FIFA foram “enganados” pela falta de transparência na condução da proposta.

Segundo a FIFA, o principal interessado em adquirir participação na nova empresa é uma gestora de investimentos sediada em Nova York, fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

É o fim da Copa do Mundo?

A proposta de Gianni Infantino prevê a criação de uma empresa separada para administrar os direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios da FIFA, incluindo patrocínios, direitos de transmissão, licenciamento e outras receitas. A FIFA permaneceria como acionista majoritária, mas venderia uma participação minoritária a investidores privados para levantar bilhões de dólares, prometendo distribuir parte desses recursos às federações nacionais.

A iniciativa, porém, provocou forte reação da UEFA (União das Associações Europeias de Futebol). As 55 federações filiadas à entidade aprovaram por unanimidade um boicote às competições da FIFA caso o projeto seja colocado em prática. Na prática, isso significaria que seleções europeias poderiam deixar de disputar a Copa do Mundo, o Mundial de Clubes e outros torneios organizados pela entidade até que a proposta fosse retirada.

Para a UEFA, a Copa do Mundo “não está à venda”, e transformar seus direitos comerciais em um ativo negociado por investidores privados representa um precedente perigoso para o futebol.

Quais são as principais críticas?

  • Pressão por lucro: investidores privados buscam retorno financeiro, o que poderia aumentar a pressão por mais jogos, novos formatos de competição e torneios mais frequentes para ampliar as receitas.
  • Perda de independência: embora a FIFA mantenha o controle da empresa, acionistas poderiam exercer influência sobre decisões comerciais que impactam diretamente o futebol.
  • Conflito de interesses: decisões estratégicas poderiam priorizar mercados mais lucrativos, patrocinadores e receitas, em detrimento dos interesses esportivos.
  • Precedente para futuras privatizações: críticos afirmam que a venda de uma participação agora pode abrir caminho para uma influência cada vez maior de investidores privados sobre a principal competição do futebol mundial.
  • Risco esportivo: caso o boicote da UEFA seja concretizado, a Copa do Mundo perderia grande parte de seu prestígio esportivo e comercial sem seleções como Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal e outras potências europeias. Caso outras confederações aderissem ao movimento, o impacto seria ainda maior.